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    De workaholics para worklovers – Uma ode ao trabalho e o Karma Yoga

    Postado às 20:45 do dia 09/10/09

    Oi, tudo bem?

     

    Esta expressão – worklovers – não é minha; eu a li no perfil de um colaborador da revista Prana Yoga Journal. Achei o termo tão legal, tão sagaz,que resolvi escrever algo sobre isso para postar no meu blog.

     

    Em minha profissão, todo dia recebo alunos cansadíssimos de sua própria jornada de trabalho, mas que não conseguem parar de trabalhar. Como eu mesma já tive uma carreira no ambiente empresarial, posso compreendê-los  bem e sei o que é sentir a pressão por resultados, mas também a satisfação de trabalhar para construir alguma coisa e obter sucesso.

     

    Dificilmente consigo dizer a um aluno para que trabalhe menos. Hoje em dia, é complicado trabalhar menos. E trabalhar – convenhamos – faz bem e é necessário. Num mundo invariavelmente material, vivenciar a matéria é uma etapa que não podemos queimar em nosso próprio desenvolvimento, seja para aprendermos que exageramos, seja para constatarmos que estamos fazendo na medida certa ou pouco.

     

    Quando eu penso nas desventuras do trabalho, sempre me surgem dois modos de encarar a dura lida: do jeito que eu ouvi de um garçom que nos servia o café da manhã num domingo de muito frio – e do jeito que eu li no livro Karma Yoga de Swami Vivekananda*.

     

    Sobre o assunto trabalho, mostrou o garçom a sua perspectiva:

     

    “? Não existe trabalho ruim. Ruim mesmo é trabalhar.” Está vendo a idéia por trás?

     

    E na ótica hindu, a perspectiva diz que trabalho é Karma Yoga.

     

    Sobre Karma Yoga, Swami Vivekanada explica:

     

    “O dever raras vezes é agradável; só quando o amor o impulsiona consegue evitar os atritos.”

     

    Quando nos deixamos envolver pelos frutos de nosso trabalho, não importa de que origem ele for, mesmo um trabalho voluntário; quando ficamos ansiosos ou preocupados com o que nos acontecerá por conta do trabalho; quando nos envaidecemos ou exageremos nas gratificações que o trabalho proporciona, surge a tensão. E, tensos, nos sentimos presos. Para o bem, ou para o mal. Não devemos nos iludir se estamos numa prisão que nos parece doce – cedo ou tarde, cai a ficha de que não estamos em liberdade. Quando cai esta ficha, viramos como aquele garçom, que não via jeito de trabalho nenhum ser bom.

     

    Entretanto, quando cumprimos com o dever – e ponto; quando nosso dever está alinhado com o bem – e ponto; quando o bem não é algo de que nos envaidecemos fazer, mas algo que nos é amorosamente permitido, nesta existência, escolher fazer – e ponto; aí trabalhamos na perspectiva do Karma Yoga.

     

    Vivekananda ainda fala em seu livro:

     

    “O trabalhador que se liga aos resultados é o que se queixa da natureza do dever que lhe coube pelo destino. Para o trabalhador desligado [desapegado], todos os deveres são igualmente bons e constituem eficazes instrumentos para destruir o egoísmo e a sensualidade [apego aos sentidos], e também para assegurar a independência da alma.(…) ” (pg. 61)

     

     “Renunciai os frutos da ação, fazei o bem por amor ao bem, e só então chegareis ao perfeito desapego. Assim se romperão as ligaduras do coração e realizaremos a liberdade perfeita. Esta liberdade é, em verdade, a finalidade de Karma-Yoga.” (pg. 103)

     

    Para nós, ocidentais, é muito difícil entender o conceito de Karma Yoga, e o mais próximo que chegamos dele é quando pensamos em trabalho voluntário ou em caridade. Normalmente, quando olhamos alguém que dedica sua vida a obras de caridade sem ganhar nada em troca, dizemos que ele trabalha por amor. Mas renunciar a um salário é uma visão limitada da compreensão do que seja Karma Yoga, tanto quando afirmar que um voluntário é totalmente desapegado apenas por que não é remunerado.

     

    Por isso gostei tanto da expressão worklovers. Até mesmo um filantropo pode ser um workaholic e estar trabalhando na contramão do Karma Yoga, atormentado e envaidecido com o quanto faz em prol dos necessitados ou do planeta.

     

    Worklovers é mais singelo: é trabalhar miúdo, dia após dia, aprendendo errando e acertando com a previsão de errar novamente. Worklovers é sair de cena, pôr o ego de lado e fazer o trabalho. Mas é se negar a trabalhar se algo ferir seus ideais. É trabalhar feliz, porque felicidade é poder trabalhar e alinhar-se, nesta vida, com um propósito maior; um propósito que, certamente, não é aquele de sua jornada de 8 horas de trabalho, mas que tem bem a ver com ela.

     

    Por tudo isso, meu conselho não seria “deixe de trabalhar, trabalhe menos”. Meu conselho é o que dou a mim mesma: mude a perspectiva, deixe de ser workaholic, para ser worklover.  Somente o amor consegue evitar ou reparar os atritos.

     

    Com afeto, Mayra.

     

     

    * VIVEKANANDA, Swami. Karma Yoga – A Educação da Vontade. São Paulo: Editora Pensamento, 2001.

    4 Comentários / Textos e Artigos, Yoga

    Existem 4 comentários até agora. Comente

    1. Por Rafael Buratto as 08:42 do dia 13/12/2008

      Lindo e inspirador o texto. Após ter entrado no grupo de estudo de Karma Yoga, tenho mudado totalmente minha ótica sobre o trabalho, e posso dizer que hoje, buscando o desapego, consigo curtir muito mais todas as coisas que pratico diariamente, inclusive o trabalho. :P.
      Beijos Mayra

    2. Por Mayra C. Castro as 09:31 do dia 13/12/2008

      Querido Rafael, eu gostaria de ter a sua idade, o seu sorriso e a sua gentileza e aprender o karma yoga pela primeira vez na vida para torná-la bela como você está tornando a sua. Um carinhoso abraço, você foi uma boa surpresa (vegan!) neste ano. Mayra.

    3. Por Sebastião M. Silva as 11:41 do dia 24/12/2008

      Quero muito apreender yoga mas não sei por onde começar, e pesso orientação.
      Como iniciar a pratica de yoga?
      É possivel apreender yoga corretamente atraves de livros?

    4. Por Mayra C. Castro as 09:40 do dia 11/01/2009

      Olá, Sebastião. Fico contente que queira aprender yoga, pois este é um caminho surpreendente. Quanto à sua pergunta, é possível aprender yoga a partir dos livros, sobretudo porque o yoga possui uma vasta filosofia que alicerça a prática. Há inúmeros livros bons sobre a teoria do yoga. Se quiser de autores brasileiros, comece pelo Auto-Perfeição pelo Hatha Yoga, de Hermógenes. Acesse também o site http://www.yoga.pro.br, de Pedro Kupfer, com ótimos textos sobre tudo que concerce o yoga. Já para a prática dos respiratórios e das posturas, é fundamental que você tenha um professor, porque é muito difícil fazer uam postura corretamente sem ter alguém apra observá-lo e corrigi-lo. Entretanto, você poderia comprar a revista Prana Yoga Journal (veja no site eyoga.com.br), que contém excelentes descrições de posturas; ou poderia comprar os Cadernos de Yoga (veja site homônimo) que contém também ótimas descrições de posturas. Finalmente, para adentrar o lado mais notório do yoga, a meditação, experiemente sozinho: sente-se confortavelmente no chão ou numa cadeira, feche os olhos e fique acompanhando a respiração. Vá aperfeiçoando esta técnica por conta própria. Existem muitos livros sobre meditação. Eu acho que o melhor é Concentração e Meditação do Sivananda, mas está esgotado. Talvez você encontre em algum sebo. Bem, é isso. Espero que ajude e que lhe sirva de incentivo. Escreva mais se quiser. Grande abraço, Mayra.

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