Que nem vinho – a maturidade no Yoga
Postado às 20:30 do dia 09/10/09
O Brasil é um país jovem. Nossas cidades são jovens. Nossa capital é mais jovem ainda. E nossa população é jovem. O feriado mais acalentado de nossa nação – o Carnaval – reflete esta predileção brasileira pela juventude: o samba não tem idade, mas cair no samba exige pouca idade.
A frase da rebeldia brasileira não foi algo maduro como o “Igualdade, Fraternidade e Liberdade” francês, nem o “Seja você a mudança que deseja para o mundo” de Gandhi, muito menos o “Se soubesse que o mundo se acaba amanhã, eu ainda hoje plantaria uma árvore” de Martin Luther King; ? a frase da rebeldia brasileira foi bem adolescente: “Desconfie de alguém com mais de trinta anos.”
No mercado de trabalho, quando se fala em altas posições executivas, diz-se que alguém deve chegar à gerência antes dos 35, à diretoria antes dos 45 e não serve mais para ser presidente depois dos 55. Não estou de brincadeira, é assim mesmo. Eu acho isso muito injusto, mas é assim. É uma ode à juventude.
Quando temos menos idade, temos mais pique: trabalhamos dez, doze horas por dia e nossa saúde não se abala; nosso casamento não desaba porque nem casados somos; nossos filhos não ficam perdidos porque – ora, nós é que somos ainda os filhos! Não há riscos, há apenas oportunidades; e, sim, podemos vender a alma pro diabo porque nem nos preocupamos com a morte. Faz sentido que o mercado de trabalho prefira os jovens.
Mas, se por um lado, possa ser excitante deixar uma empresa nas mãos de um chefe novo, por outro parece temerário receber instruções de um professor de yoga que não fosse experiente. Em um(a) professor(a) de yoga, buscamos, sobretudo, experiência; buscamos segurança; buscamos habilidade para olhar o que não conseguimos enxergar em nós mesmos. Buscamos alguém com quem possamos compartilhar os medos, porque dá muito medo levar o corpo a trabalhar como se trabalha no yoga – e se eu me machucar? e se eu cair? e seu eu piorar? Será que eu dou conta? Será que eu agüento? Buscamos alguém que diga “não sei” quando todos acham que devemos saber tudo.
Quando fui procurar uma segunda formação em yoga, cheguei para meu hoje professor e lhe disse: ? “Ok, acho lindo o método Iyengar, acho excepcional fazer uma formação nele, mas, veja, eu já tenho 35 anos! Não dá mais tempo, tenho dois filhos pequenos, não tenho disponibilidade para encarar isso, não dá: três anos de formação é muita coisa.” Este meu professor, quase vinte anos mais velho do que eu, apenas me respondeu: ? “Mas se você começar a estudar hoje, com 45 anos você será uma ótima professora de Iyengar Yoga!”
Uau! Esta resposta foi um choque: 45 anos?! Cacilda! Será que eu vou ter alunos com 45 anos? Hoje tem uma moçada se formando em yoga que vai, estuda fora, tem tempo para praticar, freqüentar cursos, viajar.” Eu tiro meu sustento do yoga”, pensei, “como é que posso imaginar que alguém vá preferir fazer aula comigo quando eu tiver 45 anos se poderá fazer aula com alguém que está vindo com coisas novas, técnicas, métodos, tudo isso?!”
Apesar destes meus temores, entrei para o curso. (Aliás, estou indo para o segundo ano dele.)
Na época eu não percebi, mas hoje sei que temi começar um curso tão longo e tão diferente de tudo que eu tinha aprendido porque eu mesma estava funcionando no padrão do mercado de trabalho.Estava achando que tudo devia acontecer para ontem e, sinceramente, eu mesma não estava valorizando a experiência (pequena, mas nem tanto assim) que tenho. A injustiça que eu enxergava ser aplicada aos executivos, estava eu aplicando-a em mim.
Esta ficha caiu quando conheci uma outra professora de yoga, dez anos mais velha que eu, por quem nutri, desde o primeiro contato, uma imediata admiração. Tive a sorte de poder almoçar com ela algumas vezes e de privar da companhia dela como hóspede em minha casa.
Esta professora não apenas absorvia muito mais da metodologia Iyengar entre nosso grupo, como fazia mais conexões entre o que estava aprendendo e o que aplicava em sala de prática. Além disso, a aplicabilidade do yoga em sua vida tinha um dimensão muito maior do que muitos que estavam ao nosso lado, e suas respostas às aflições que eu mesma tinha eram simples e oriundas da experiência de já ter vivido aquilo, e não de teorias. No que eu era insegura para exprimir, no que eu tinha dificuldade de captar, ela já estava fazendo a síntese. E quando eu tentava juntar as informações todas, ela vinha com o essencial.
Outra lição que tive com ela foi bem singela: os cursos que ela dá sempre começam tarde da manhã e têm um longo intervalo para almoço. É o horário de alguém que se conhece e sabe que vai dar o melhor de si numa carga horária que atenda às suas capacidades e não ao padrão da carga horária que os cursos costumam ter (iniciando cedo, pequeno intervalo de almoço e terminando tarde).
Quando se tem maturidade, acontece isso: a gente faz aquilo que dá para fazer porque chegamos à conclusão de que é isso que queremos. As crianças são espontâneas e costumam sacar os adultos muito melhor que eles próprios. Não é à toa que toda criança quer ser adulto para poder fazer o que bem entender. Eles sabem o que é bom, a gente é que esquece. E meu pai, que tem 76 anos, costuma comentar que a melhor coisa de ser velho é poder dizer o que se pensa. Tenho que concordar com ele e com as crianças.
E fico feliz de ver que, no yoga, quanto mais velho, melhor. É que nem vinho. E a maturidade não é um bom negócio apenas no que se refere ao ensino do yoga. Como yoga é, fundamentalmente, auto-observação e respeito à vida, muitas vezes tiram mais proveito da prática pessoas mais velhas que as mais novas, simplesmente porque estas querem correr na frente para correr atrás do prejuízo e, aquelas, querem apenas correr, nem na frente, nem atrás, só correr.
Que eu possa, na convivência com estes meus dois professores que estão correndo, aprender a correr eu também. Só correr. E, quiçá, trazer outros na mesma corrida.
Com gratidão por os ter encontrado, Mayra.
10 Comentários / Textos e Artigos, Yoga











oLÁ, GODTEI MUITO DO SITE E GOSTARIA DE SABER MAIS SOBRE yoga, SOU MUITO AGITADA E TENHO INTERESSE ME PELO MENOS TER UM CONTATO MAIS PROFUNDO, JÁ QUR NÃO CONHEÇO A RESPEITO….
Me admira como você escreve bem, Mayra. Isso acaba sendo bem raro hoje em dia. Parabéns! Gostei muito do artigo sobre a maturidade. É bem verdadeiro, e adorei a frase do seu pai.
Carmem
Olá Mayra
Que belezura de texto heim. Foi muito acalentador ler sobre suas dúvidas pois muitas delas são minhas também, funcionou.
Grande beijo
Ricardo
Olá, Ricardo. Adorei o belezura e super agradeço, pois sua opinião me é muito cara. Outro grande beijo pra você! Mayra.
[...] Um professor sempre melhora sua didática à força de dar aulas. Por isso é que, no yoga, eu já escrevi que um professor mais velho e experiente é como vinho que só faz melhorar com o [...]
Oi Mayra, aqui sua prima de São José dos Campos. Este seu texto me fez pensar que tenho procurado um(a) professor(a) experiente de yoga em nossa cidade, e até agora não encontrei. Você pode me indicar alguém com boa vivência de yoga em SJC?
beijos da prima,
Fabíola
Mayra
Estou Maravilhada com este blog, e vc não imagina o quanto tem me ajudado! Tenho 50 anos, duas filhas Maravilhosas, e sem dúvida alguma passei boa parte da minha vida em função da casa, das filhas, do marido. Hoje quando vejo que chegou a maturidade vejo que muitas pessoas como eu não se preparam para esta transformação, e ficam perdidas…
Espero poder começar um novo caminho agora voltado mais aos cuidados da minha vida, da maturidade que chega com seu lado bom e outros nem tanto. Por isso o alerta para que as pessoas se cuidem e pratiquem algo que cuide do corpo físico para quando a menopausa chegar.
Abraços, Paz Sempre e Muito Obrigada.
Angela, eu fico super grata com seu comentário. Quando escrevo, sempre penso que alguém, do outro lado do micro, está lendo e sentido o que estou escrevendo e experenciando. Talvez por isso, em algum momento, cria-se uma conexão. Este texto, sobre a maturidade no yoga, foi um presente que ganhei da vida. Quando penso nele, lembro de uma frase que li: “Que eu possa ser o buraco da flauta por onde passa o sopro divino.” Um abraço querido, Mayra.
Very interesting post. Keep writing dude !!
Thank you so much!